Clube de Leitura LER PARA TECER AEA-MG Release referente ao 62º. Encontro

Livro do mês
MERIDIANA
Autora
Eliana Alves Cruz
Data do encontro
24/09/2026
Encontro nº
62
Informações sobre o livro

“O livro Meridiana, de Eliana Alves Cruz, tem uma narrativa feita a 6 vozes, que são os protagonistas do romance.  Entre eles, Meridiana, a qual, como o nome sugere, está sempre tentando intermediar os conflitos familiares, como uma linha a ligar os polos opostos.

O romance começa com Meridiana perguntando ao pai, Ernesto, se era mais fácil ir ou voltar. E ele responde que depende. Pergunta e resposta servem de mote para a ação narrativa, concentrada na ascensão de uma família negra que sai da Favela Matadouro e vai para um condomínio de classe média. A partir daí a autora explora temas como o racismo, os deslocamentos sociais, gênero, a homofobia, o preconceito, a violência, a política, a velhice, o trabalho coletivo, o pertencimento, a memória, a solidão, a aparência…

Em um estilo ágil, as vozes se multiplicam, diversificam-se os pontos de vista e acompanhamos o livro com vivo interesse, ora em muitas reflexões, ora em sensíveis identificações.

Um romance atual, inteligente, interessante a retratar as relações familiares e sociais em um país tão desigual como o nosso e que, merecidamente, ganhou o Prêmio Guimarães Rosa de melhor livro de ficção de 2025, da Academia Brasileira de Letras. Uma rica leitura!” (Sebastião Aimone Braga, leitor de Ler para Tecer)

Informações sobre a autora

A autora: Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é uma premiada jornalista, escritora e roteirista brasileira, nascida no Rio de Janeiro em 1966, reconhecida por sua literatura focada na ancestralidade negra e na recuperação de memórias silenciadas da história do país. É jornalista formada em Comunicação Social, escritora, roteirista e apresentadora (como no programa Trilha de Letras, da TV Brasil). Atuou por mais de duas décadas com comunicação empresarial e assessoria de imprensa em grandes eventos esportivos e olímpicos internacionais.

Para conhecer a autora:

 

https://youtu.be/UiuZYaoNhbI?is=7KClOyn6fiIiEzsE

 

https://www.youtube.com/watch?v=B0lvPW0eAtk&t=42s

 

            Principais Obras: Água de Barrela (romance- 2016), O Crime do Cais do Valongo (romance-2018), Nada Digo de Ti, que em Ti não Veja (romance-2020),  A Vestida (contos-2021/2022) – Prêmio Jabuti 2022 , Solitária (romance-2022): Meridiana (romance-2025)

Fotos e vídeos

Trechos do livro

“Pai, é mais fácil ir ou voltar?”

“Depende. É fácil voltar quando você precisa muito do que ficou para trás.” p.9

 

“Para muita gente a recordação olfativa dos domingos é o cheiro de macarronada, feijoada, cozido, churrasco. Para mim, os domingos cheiravam a cabelo queimado. As mãos cheias de prática da mãe puxando mecha por mecha, descendo lentamente com o pente aquecido na boca do fogão.”p.10

“ “Filha, não liga pros meninos. Pra homem é tudo mais fácil. Aguenta o pente quente. Ele é melhor que outras coisas…”

Eu ali, com o cabelo metade crespo metade liso, querendo perguntar para dona Aurora o que eram essas “outras coisas”, mas ela não falava nada, apenas retomava mecha por mecha. Difícil explicar para uma menina pequena o que nem ela mesma conseguia entender.”p.12

 

“’Não, filha, não é só ver que está ruim, dar meia-volta e retornar. Tem mais coisa nesse percurso, e quem volta não é mais aquele que um dia foi.’”p.17

“Minha mãe era uma pessoa ácida, e gente assim não tem doçura na fala e muito menos no olhar. Dona Apolônia errava muito, mas também acertava bastante, porque via a falta de candura que há por trás dessas coisas que a gente quer abrandar. Tenho que fazer como ela e admitir que meu marido está me abandonando. Não tem outro nome para a atitude dele. Meus filhos dizem que estou fazendo um drama excessivo, mas essa é a única verdade e estou doente de decepção não dele, mas de mim, pois não percebi quão fiel ele era… a si mesmo! Eu é que me traí. Que raiva, meu Deus, que raiva!”p.52

“É um privilégio escolher de qual janela vamos contemplar o crepúsculo da vida…”p.99

“Os fatos podem até se repetir, mas não precisam gerar as mesmas consequências.”p.173

Trechos copiados da edição: Eliana Alves Cruz (1966). Meridiana. Romance. 1ªed. São Paulo: Companhia das Letras. 2025

Encontros do Clube de Leitura

 

63º. – Uma certa história de amor, da autora italiana, Milena Agus.

Data prevista para o próximo encontro:  29/10/26

 

 

Os encontros são realizados nas últimas quintas-feiras de cada mês, de 20h às 22h.

O tema do clube de leitura “LER PARA TECER AEA-MG” é a leitura de livros de romances escritos por autoras brasileiras e também estrangeiras.

“Um clube de leitura é um grupo de pessoas que leem o mesmo livro e se reúnem, de tempos em tempos, para conversar sobre cada uma das obras lidas.”

 

Cometários dos leitores

“A obra nos remete aos conflitos cotidianos que vemos e/ou vivemos e a muitas reflexões como a permanência do racismo, ainda nos dias de hoje. Uma abordagem delicada, com múltiplas visões e efeitos nas vidas dos personagens da família da Aurora e Ernesto.

O ponto marcante para mim foi o “retorno” e o tempo e a forma de cada um fazê-lo (ou não fazê-lo).

A citação de Nego Bispo, no início do livro, sintetiza tudo: ‘É preciso aprender a voltar para casa.’” (Maria do Carmo Nunes)

 

“Gostei muito do livro. Bem escrito, simples, com narrativas enxutas, mas muito ricas; tudo é necessário no texto, não há desperdício e nem excesso, como bem disse o Sebastião. Todos os personagens bem construídos e críveis. Me senti compartilhando momentos da vida de Meridiana e da família: contexto histórico, vivências tão parecidas com as minhas que revi minha própria história ao acompanhar a deles. No começo do livro, a mãe alisando os cabelos de Meridiana no final de semana, me trouxe de volta minha mãe fazendo touca nos meus cabelos no sábado e domingo (tinha que ser dos dois lados), para transformar meus cabelos cacheados rebeldes em lisos e alinhados. O cuidado de minha mãe e da mãe de Meridiana para nos tornar menos “diferentes” (quanto amor!) em um mundo que não nos queria. Ainda mais ela carregando o enorme fardo de ter a pele negra, em uma sociedade racista e ignorante, quanta dor para toda família.

O racismo é tão incompreensível, que é difícil perceber quando não sentimos na pele. Como disse Brás Cubas: “suporta-se com paciência a cólica do próximo” .O livro expôs absurdos que, confesso, preferia esquecer que existem e existiram, mas é minha obrigação como ser humano conhecer e combater.

Obrigada pela escolha, muito importante e tocante leitura. Gostaria muito de ter me tornado amiga das “Meridianas” que encontrei na minha caminhada, Verdadeiras e admiráveis guerreiras. Adorei participar do encontro, mais uma vez, muito bom ouvir os colegas compartilhando as suas próprias histórias e experiência com a leitura. Como sempre, ótimo! Obrigada a todos!” (Márcia Vanise)

 

“Meridiana é uma obra que acompanha a trajetória de uma família negra que sai da favela e conquista uma posição na classe média. Mas descobre que esta ascensão não elimina as desigualdades e nem as marcas do racismo. A história é contada por diferentes vozes. De uma maneira muito interessante e agradável de ler, em cada capítulo um personagem (os principais) conta a própria versão da história familiar revelando seus sentimentos e suas perspectivas. Destaco pontos importantes e muito atuais que valem a reflexão: racismo e ascensão social, pertencimento a grupos, preconceitos quanto à orientação sexual, aceitação pela comunidade, conflitos familiares, memória, solidão e o papel das mulheres em todos estes núcleos. Reflexões muito importantes e necessárias nos dias atuais. Conteúdo denso escrito de forma leve e agradável de se ler. Gostei muito.

Obrigada Terezinha pela indicação e pela condução da reunião. Rica e produtiva.” (Janete Magalhães)