
No dia 26 de março de 2026, foi realizado, por videoconferência, o quinquagésimo-sexto encontro do CLUBE DE LEITURA LER PARA TECER AEA-MG.
O livro discutido nesse encontro foi O VOO DA GUARÁ VERMELHA
Autora: Maria Valéria Rezende (brasileira)
Sobre: O VOO DA GUARÁ VERMELHA
O livro O Voo da Guará Vermelha, da escritora Maria Valéria Rezende, traz-nos o encontro entre a prostituta Irene e o ajudante de pedreiro Rosálio, desvalidos em seus caminhos, e que o acaso possibilita uma troca para reescrita da vida e sua transformação, tal qual a ideia de letramento proposta por Paulo Freire, em que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Após caminhos diversos, de buscas e penúrias, no fim do dia, mesmo cansados, encontram-se para oferecer momentos de paz, um amor calmo e crescente, descobertas, aprendizagem.
Maria Valéria faz a narrativa através de frases longas e musicais, coloridas, privilegiando a linguagem oral, poética, ecoando muitas vozes. Intertextualiza com narrativas clássicas, recriando-as, como a história de Sherazade, Dom Quixote, lendas e seres fantásticos. Consegue ainda inserir temas como o trabalho, lutas sociais, reforma agrária, burocracias, coletividade. Ilumina com consciência e humanidades personagens à margem da sociedade. Não é à toa que Rosálio termina exibindo-se com sucesso na praça, mostrando a sua arte de contar histórias, sem o jugo dos trabalhos anteriores e Irene voa, colorida, acima de misérias, dores e preconceitos.
Como na tradição dos griots, guardiões da tradição oral africana, a autora recolhe histórias, tradições, rompe o silêncio do esquecimento e joga luz sobre a invisibilidade de seus personagens. Importante lembrar que o que lhes permite essa reescrita da vida é a palavra, seja oral, escrita, desenhada, sonhada ou na invenção das histórias.
Um livro que nos comove, instiga, ensina, traz identificação com nosso contexto social e nos leva a outras histórias, outros cantos, porque o canto da vida se tece múltiplo, em saberes, escritas e vozes.
(Sebastião Aimone Braga- leitor de Ler para Tecer)
A autora: Maria Valéria Rezende
Maria Valéria Rezende nasceu em Santos/SP, em, 1942. Radicada há 40 anos no Nordeste, Maria Valéria, que se orgulha de ter recebido o título de cidadã paraibana, tem uma trajetória singular na literatura brasileira.
Freira da Congregação de Nossa Senhora – Cônegas de Santo Agostinho, formada em Língua e Literatura Francesa, Pedagogia e mestre em Sociologia, Maria Valéria dedicou-se, desde os anos 1960, à Educação Popular, em diferentes regiões do Brasil e no exterior, tendo trabalhado em todos os continentes. Antes de publicar literatura, escreveu livros de não ficção sobre história, religião e movimentos populares.
Sua estreia na literatura ocorreu pouco antes de completar 60 anos de idade, com o livro de contos “Vasto Mundo” (Beca, 2001, reeditado pela Alfaguara, em 2015). Com os romances “Quarenta Dias” (Alfaguara, 2014) e “Outros Cantos” (Alfaguara, 2016), ambos multipremiados, Maria Valéria se consolidou como uma das principais vozes da literatura brasileira do século 21. Entre outras distinções, Maria Valéria Rezende recebeu os prêmios Casa de Las Américas (Cuba), São Paulo de Literatura, Jabuti e Oceanos. Sua obra inclui diversos títulos para crianças e jovens, alguns premiados com o Jabuti.
Em 2017, Maria Valéria esteve entre as idealizadoras do Mulherio das Letras, coletivo feminista literário que contribuiu, de forma decisiva, para aumentar a participação de autoras na cena literária brasileira.
Os personagens que povoam as histórias de Maria Valéria Rezende são um aspecto distintivo de seu projeto literário. “Seja em seu trabalho no sertão, junto a comunidades paupérrimas, seja nas páginas de seus livros, Maria Valéria se posiciona claramente ao lado dos deserdados da vida”, resumiu com rara felicidade Luiz Ruffato, em artigo para o El País, em junho de 2014.
Trechos:
“Nasci sem nome, como a serra que me guardava, porque nunca tive pai que me chamasse e não havia padre que me batizasse. De minha mãe dizem que era a mais bonita e alegre de todas as moças da Grota, mas o nome eu também nunca soube porque só a lembrança dela dava em toda a gente uma tristeza tão funda que aquele nome ficou proibido de se pronunciar. De primeiro, disseram, me chamavam “o pequeno”, mas depois que eu fui crescendo e nasceram outros mais pequenos do que eu, virei Nem-Ninguém porque cada vez que eu chorava, pedindo mais leite, mais mel, mais angu de fubá, minha avó dizia, “e vosmecê é nem ninguém pra comer mais do que os outros?” p.22
“vou para o meio do mundo contar tudo o que já sei e mais as coisas que eu só posso conhecer quando disser, soltando minhas palavras, sem teto, laje ou telhado por cima de minha cabeça que me separe de Irene, que eu sei que por onde for, a minha guará vermelha, minha mulher encantada, vai sempre me acompanhar…”p.157
“…quem é que sabe, afinal, o que há de verdadeiro nas coisas que a gente lembra?, e que verdade se esconde nas coisas que a gente pensa que está inventando agora?” p.117
Obs: os trechos acima foram copiados do livro: Maria Valéria Rezende. O voo da guará vermelha. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014
Comentários de alguns leitores do Clube de Leitura:
“Minha cabeça nasceu vazia. Tudo o que sai dela, é porque entrou” M. Valeria Rezende. – Adorei!
Ouvir Maria Valéria falar sobre sua vida e seus escritos é sempre maravilhoso. Já a tinha visto pessoalmente no Sesc em São Paulo e fico sempre encantada com sua personalidade acolhedora. Obrigada Terezinha, por nos proporcionar esse momento. O livro é doce, leve, embora conte a história de uma vida difícil comum a muitos seres humanos. Precisamos tanto dessa ternura expressada ali… O ritmo do texto, como um cordel, realmente me encantou. Obrigada Maria Valéria por sua disponibilidade em estar conosco, respondendo a nossas dúvidas com tanto carinho.’
(Luciane Madrid)
“Nosso encontro de hoje fluiu de maneira ainda mais natural e espontânea!!!
Muito obrigada, Terezinha, por nos proporcionar essa preciosidade!!!” ( Raquel Pereira Campos)
“Nosso encontro de ontem teve um sabor especial. Que sorte a nossa!! Pudemos conversar com a autora do livro do mês (e que livro!!) e saber um pouco mais de seu processo de criação e de sua vida. E que pessoa simpática, agradável, generosa, disposta a conversar encontramos!! Foi muito especial. Com certeza, este dia ficará nas nossas memórias mais queridas!!
Muito obrigada à Maria Valéria Rezende por dispor de seu tempo para nos encontrar, à Terezinha pela indicação do livro e por conduzir a reunião e à AEA pelo patrocínio!!
O personagem Rosálio, pela situação com o nome, me remeteu ao personagem de “Cachorro Velho”, da autora cubana Teresa Cárdenas, que também não tinha recebido nenhum nome.” (Rita Ponciano)
“Amei este livro e eu e minha tia já compramos 5 para presentear…História perfeita, diferente e maravilhosa. Uma prostituta e um analfabeto… uma verdadeira história de amor. Já contei essa história para inúmeras pessoas, indico esta obra sempre. Li em 06/24 e não reli, ainda.”(Cláudia Picinin)
“Encontro maravilhoso!
Depois de ter o privilégio de ouvir os comentários e conhecer a escritora Maria Valéria me deu vontade de ler todos seus livros.
Obrigada Terezinha pela indicação do livro e proporcionado este encontro.”(Sônia Birro)
“Fiquei apaixonada pelos personagens. O que mais me impressionou foi a forma como a leitura em si tornou-se tema. De um lado a prostituta que perdera a capacidade de sonhar e de outro Nem-Ninguém que sonhava em conhecer as letras. A partir desse encontro passaram a sonhar juntos através da janela dos livros e da contação de histórias. “Nem todo mundo lê. Só quem precisa”. Aplausos para Maria Valéria. (Janete Magalhães)
“Grupo querido, que alegria vivenciar tanto ontem, em tão pouco tempo !!!!!
Gratíssima Maria Valéria Rezende, que iluminou ainda mais a obra, intensa beleza literária em cores, com sua história de vida, escolhas e lutas.
Que privilégio e sorte a nossa: ouvir, experimentar, rir, ousar, partilhar, aprender, sentir e despertar para um mundo tão real onde o nosso agir fez e faz transformações individuais e coletivas. Mudanças pequenas e grandiosas numa sociedade carente de justiça, afeto e solidariedade. Um grito urgente e antigo “Proletários de todos os países, uni-vos. Último aviso” -de Eduardo Galeano. (Maria do Carmo Nunes)
“Esse nosso Clube de Leitura é maravilhoso! Terezinha apresentando obras que nos emocionam em cada encontro. Mais que isso, que nos fazem mais próximos. E em nosso último proseado, com a participação afetuosa da autora Maria Valéria, pudemos nos irmanar por entre frases inimagináveis, pelo menos pra mim, até então. Na leitura prévia do livro O voo da guará vermelha, fomos capazes de rir enquanto chorávamos; de acolher enquanto estávamos perdidos; de sonhar por entre as mazelas da vida. Sempre juntos com personagens envolventes, Irene e Rosálio especialmente, educadores em essência para quem ainda acredita na existência de um paraíso perdido, ao meu ver, dentro de cada coração pulsante!” (Marcos Eduardo de Almeida)
Para conhecer a autora:
Próximo livro e data prevista para a discussão:
57º. – VIOLETA, da autora chilena, Isabel Allende
Data prevista para o próximo encontro: 30 de abril de 2026
Os encontros são realizados nas últimas quintas-feiras de cada mês, de 20h às 22h.
O tema do clube de leitura “LER PARA TECER AEA-MG” é a leitura de livros de romances escritos por autoras brasileiras e também estrangeiras.
“Um clube de leitura é um grupo de pessoas que leem o mesmo livro e se reúnem, de tempos em tempos, para conversar sobre cada uma das obras lidas.”
Terezinha Pereira
28/02/26