No dia 30 de julho de 2026, foi realizado, por videoconferência, o sexagésimo encontro do CLUBE DE LEITURA LER PARA TECER AEAMG.
O livro discutido nesse encontro: AS MENINAS
Autora: Lygia Fagundes Telles
Sobre: AS MENINAS
“Utilizando fluxo de consciência e diversas vozes narrativas, Lygia Fagundes Telles nos traz em As Meninas um rico painel dos anos de repressão no Brasil, focalizando 3 personagens femininas e seus caminhos díspares. A uni-las, um pensionato dirigido por irmãs religiosas e a amizade superando as diferenças. Lorena, de origem rica, generosa, magrinha, religiosa, estudante de Direito, com mania de limpeza, sempre “minhocando”. Lia, a Lião, dura, centrada, engajada, ligada a grupos revolucionários, gordinha, filha de alemão nazista com baiana, cabeleira crespa, estudando Ciências Sociais. Por último, Ana Clara, a Ana Turva, linda, modelo, deprimida, drogada, mentirosa, travada, analisada, de passado sofrido e fazendo Psicologia.
Juntas, se envolvem em conflitos familiares, sonhos românticos, sexo, projetos políticos, desejo de ascensão social. Fragilizadas, buscam seus caminhos ajudando-se mutuamente, até que uma tragédia acontece e poderá mudar definitivamente as suas vidas. Ou não. A autora deixa ao leitor a continuidade da ação narrativa.
Obra difícil, sofisticada, tecida coerente com as complexidades do seu tempo. Retrato doloroso de página da nossa história, em suas contradições, autoritarismo, tortura, drogas. Ficam, para o leitor, o conhecimento e a reflexão.” (Sebastião Aimone, leitor do Clube do Livro Ler para Tecer AEAMG
A autora: Lygia Fagundes Telles
Lygia Fagundes Telles nasceu em 19 de abril de 1923, em São Paulo/SP e faleceu em 03 de abril de 2022, na mesma cidade. Foi uma das maiores escritoras do Brasil, conhecida como a “dama da literatura brasileira”. Formou-se em Direito e trabalhou como Procuradora do Estado em São Paulo. Defendeu os direitos humanos e a liberdade de expressão contra a ditadura militar no Brasil. Destacou-se na prosa intimista e no pós-modernismo. Foi a terceira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Ganhou prêmios importantes como o Jabuti de Literatura (4 vezes: 1966, Verão no Aquário – ou Jardim Selvagem; 1974, As Meninas; 1996, A Noite Escura e Mais Eu) e o Prêmio Camões, em 2005.
Trechos do livro:
“— Você acredita que casamento rico vai resolver? — perguntou Lia. Teve um sorriso triste: — Devia se envergonhar de pensar assim, Lorena. E vai sair casamento? O moço então não está sabendo de toda essa curtição? Ao invés de ficar pensando no milagre do casamento você devia pensar num milagre de verdade, entende? Não sei explicar mas vocês, cristãos, têm uma mentalidade tão divertida.
“Vou até a chaleira e encho novamente as xícaras. Paro no meio do caminho. Jimi Hendrix cantava drogado, essa voz meio rouca não é de drogado? Voz turbilhonada de quem pede socorro mas não quer ser socorrido.
— Ontem ela estava tão lúcida. Diz que Madre Alix ajuda, vai recomeçar com a análise. Quem sabe, hein, Lião?
— Você acha que nessa altura uma análise vai funcionar? Teria que ser um analista bossa São Sebastião, aquele das flechas, bonito e bom. Então ela se apaixonava por ele e se salvava pelo amor, como nas revistinhas que adora ler. E mais o Jaguar e o tal casaco.” p.30-31
“— Vocês me parecem tão sem mistério, tão descobertas, chego a pensar que sei tudo a respeito de cada uma e de repente me assusto quando descubro que me enganei, que sei pouquíssima coisa. Quase nada — exclamou e abriu as mãos no espanto. — O que sei, afinal? Que é da esquerda militante e que perdeu o ano por faltas? Que tem um namorado preso, que está escrevendo um romance e que está pensando numa viagem que não tenho ideia para onde seja? Que sei eu sobre Lorena? Que gosta de latim, que ouve música o dia inteiro e que está esperando o telefonema de um 143 namorado que não telefona? Ana Clara, aí está. Ana Clara. Como me procura e faz confissões, eu podia ficar com a impressão de que sei tudo a respeito dela. Mas sei mesmo? Como vou separar a realidade da invenção?
Quando ela se cala, fico ouvindo o som do relógio. As cadeiras de jacarandá de espaldar alto com as toalhinhas de crochê na altura da cabeça, estavam puídas as toalhinhas. Mas se foram feitas por avó Diú.” (Madre Alix, do Pensionato Nossa Senhora de Fátima)p.144
Trechos copiados da edição: Lygia Fagundes Telles (1923-2022). As meninas – romance-1973. São Paulo: Cia. das Letras, 2009
Comentários de leitores
“No romance As Meninas, Lygia Fagundes Teles constrói de maneira sofisticada conexão entre visões de mundo de três jovens completamente diferentes entre si, ao cenário político complexo de 1970. Lorena (estudante de direito, intelectual burguesa), Lia/Lião (jovem estudante socialista revolucionária) a Ana Clara/Ana Turva (pobre de origem humilde e sofrida, abusava das drogas e misturava delírios com memórias do passado). As histórias das três revelam questões profundas como: repressão política e ditadura militar, desigualdade social, violência, amor, papel da mulher na sociedade, dependência química, solidão. A leitura é bastante confusa até acostumarmos e entendermos as técnicas literárias utilizadas pela autora. Quando entendi isso não só “mergulhei” no livro como passei a admirar o brilhantismo, a sutileza e a sofisticação de Lygia Fagundes Teles.” (Janete Magalhães)
Luciane Madrid AEA MG: Terezinha e grupo, não consegui participar ontem. Tive um compromisso mais cedo que acabou, de forma imprevista, se estendendo até mais tarde.
“Li As Meninas há dois anos, não havia relido mas a leitura foi tão impactante pra mim que não achei necessário reler. Na época, em minhas anotações, expressei o espanto por Lygia não ter tido problemas com a censura e, não sei se foi comentado no encontro, dizem que os censores começaram a ler o livro mas acharam a obra chata, “escrita de mulher”, e não avançaram na leitura, liberando o livro. Ser mulher, nesse caso, foi vantagem. Anotei os bordões que caracterizam as personagens:
* Lorena: “Ai, meu pai!”
* Lia: ” Não sei explicar “
* Ana Clara: “Pomba!”
Achei interessante essa forma de caracterização das personagens também, seu vocabulário.
E anotei uma fala de Lygia Fagundes Telles, que disse que a função do escritor, da escritora, é “ser testemunha do seu tempo e da sua sociedade.(Luciane Madrid)
“Este livro me exigiu bastante uma leitura e releituras de alguns trechos pelas diversas narrativas e pela temporalidade. A busca do entendimento me causou um fascínio pela escrita da Lygia Fagundes Teles, que eu conhecia só superficialmente pela novela. Este livro me despertou desejo de ler mais obras. Peguei o livro As meninas na Biblioteca Municipal de Nova Lima e tive que renovar umas 3 vezes! Certeza que o encontro ontem foi bastante rico!!” (Liliana Couto)
“As Meninas, nossa leitura do mês de julho, foi surpreendente e com um estilo literário inédito para mim, gerando muito aprendizado. Literatura fragmentada/caleidoscópica. Romance psicológico, com vozes polifônicas, 4 narradores, 1 de mediação além das três jovens estudantes universitárias de áreas distintas, direito, ciências sociais e psicologia.
Deixo dois destaques: a página 72, com a narrativa da Ana Clara, que no auge do efeito dos narcóticos, em plena alucinação, remete ao passado de dor e sofrimento. Se apega ao ódio para suportar o presente. Outro ponto que me impressionou foi o fim abrupto da obra, encerrando em si a agonia e a ausência de saída para Ana Clara com sua morte trágica. E a relação harmoniosa do trio revelando a astúcia, cumplicidade e o valor da amizade.
Todas as tramas articuladas e inteligentemente apresentadas nos anos de chumbo em nosso país.”(Maria do Carmo Nunes)
“Tive dificuldade no início com um caos apenas aparente, mas com os posts no grupo me animei e a leitura fluiu.
Fiquei encantada de como a autora conseguiu mostrar sutilmente, através das personagens, as turbulências e circunstâncias sociais, políticas, culturais e familiares (como o conflito de gerações e a busca por um futuro melhor para si e para o país: oportunidade de crescimento e mobilidade social por um lado e a tentativa de confrontar o poder estabelecido e as relações em todos os níveis).
Achei interessante, na voz de Lorena, a explicação da paródia da frase de Shakespeare, em Hamlet, “ser ou não ser” como “ser ou estar”.”(Maria do Carmo de Carvalho)
“Chegamos a falar no encontro de ontem, de uma possível estratégia da autora para burlar a censura rigorosa da época, dificultando a leitura nas páginas iniciais do livro. Era sabido da ignorância e burrice dos censores, que poderiam implicar com a obra. Havia piadas sobre Dona Solange, uma das censoras, como uma pessoa “burra”. O certo é que funcionou, passou pela censura, com a opinião preconceituosa (característica da direita) de escrita feminina, ignorando a formação em Direito, o engajamento e a voz corajosa de Lygia.”(Sebastião Aimone)
Para conhecer a autora:
Próximo livro e data prevista para a discussão:
61º. – OS ESQUECIDOS DE DOMINGO, da autora francesa, Valérie Perrin
Data prevista para o próximo encontro: 27/08/26
Os encontros são realizados nas últimas quintas-feiras de cada mês, de 20h às 22h.
O tema do clube de leitura “LER PARA TECER AEA-MG” é a leitura de livros de romances escritos por autoras brasileiras e também estrangeiras.
“Um clube de leitura é um grupo de pessoas que leem o mesmo livro e se reúnem, de tempos em tempos, para conversar sobre cada uma das obras lidas.”
AEAMG
Autora: Lygia Fagundes Telles Capa do Livro: As Meninas Leitora: Maria do Carmo de Carvalho



