43º Encontro do Clube de Leitura Ler para Tecer AEAMG
No dia 27 de fevereiro de 2025, foi realizado, por videoconferência, o quadragésimo-terceiro encontro do CLUBE DE LEITURA LER PARA TECER AEA-MG.
ENTERRO CELESTIAL, romance da escritora chinesa, Xinran foi o livro lido pelos participantes do Clube de Leitura para ser discutido nesse encontro.
Sobre: ENTERRO CELESTIAL
Numa das edições do programa de rádio que fazia na China, Xinran conheceu Shu Wen e sua espantosa história de vida. O casamento de Shu Wen com o jovem médico Kejun durou menos de cem dias. O rapaz, influenciado pelo entusiasmo que tomou conta da China nos anos subsequentes à revolução de 1949, alistou-se no Exército e logo foi enviado ao Tibet com as tropas que auxiliariam o governo chinês a “libertar” o povo da região. Dois meses depois, no quartel-general da cidade de Suzhou, Shu Wen recebeu a notícia de que ele havia morrido. Insatisfeita com os relatórios e as explicações oficiais, partiu para o Tibet em busca de Kejun, numa viagem que levaria mais de três décadas. Lá, além de encontrar um sentido para a morte do marido, ela viveu uma experiência singular de autoconhecimento.
A autora: XINRAN
Xue Xīnran nasceu em Pequim, China, em 19 de julho de 1958) É jornalista, radialista e escritora. Xinran foi apresentadora de um programa de rádio em Nanquim entre os anos de 1989 e 1997, denominado “Palavras na brisa noturna”. Nele, discutia aspectos do cotidiano e dava conselhos aos ouvintes. Seus pais foram presos durante a Revolução Cultural da China e durante os dez anos em que passaram na cadeia, ela e o irmão foram mandados para escolas militares, marcadas como “crianças negras”, filhos de uma família antirrevolucionária e traidora da nação. Xinran obteve duas graduações enquanto esteve tutelada pelo Exército Militar, e posteriormente estudou Direito Internacional. Em 1988, começou a trabalhar no rádio. Com a reabertura econômica da China, o governo começou a relaxar o controle sobre a mídia e instalou várias antenas de rádio. Nesta época, Xinran começou o seu programa de rádio “Palavras na brisa noturna” e foi um dos primeiros a acontecer sem passar pela censura do Estado.O programa de rádio ia ao ar diariamente entre as 22h e meia-noite. O programa passou a ter milhões de ouvintes e a jornalista começou a receber ligações e cartas todos os dias, com relatos de mulheres de todas as classes sobre suas vidas e suas experiências. Em 1997, mudou-se para Londres e começou a escrever as histórias das mulheres chinesas que entrevistou ao longo de sua carreira, resultando na publicação de seu primeiro livro, As Boas Mulheres da China, publicado em 2002. O livro traça um panorama sobre a condição feminina da China revolucionária, suas consequências e da China atual. Muitas das histórias foram retiradas do seu programa de rádio “Palavras na brisa noturna”. Xinran escreveu para o jornal The Guardian entre os anos de 2003 e 2015[7] e atuou como professora na School of Oriental and African Studies da Universidade de Londres, entre os anos de 1997 e 2001. Em 2009, Xinran e esteve mo Brasil como autora convidada para a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Xinran escreveu a maioria dos seus livros em mandarim, pois afirma que por serem livros de não-ficção ela sentiu a necessidade de escrever na voz dos próprios chineses. O único livro escrito originalmente em inglês foi O Que os Chineses Não Comem, por se tratar de uma coletânea de textos publicados na sua coluna no jornal The Guardian.Atualmente, Xinran faz parte do corpo docente da Faculty of Humanities and Social Sciences da Universidade de Nottingham (Ningbo, China), como professora honorária.
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Trechos do romance (copiados da edição: Xinran Xue (1958). Enterro Celestial.
1ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004
“ Wen olhou para as roupas esfarrapadas e desbotadas. Se não era mais chinesa, quem era? Mas talvez essa questão não importas-se. O que importava era que sua alma tinha renascido. […]: simplesmente continuar vivendo era uma vitória.” p.153
“Querida Wen,
Se hoje eu não retornar, outros lhe contarão o que aconteceu comigo. Por favor, entenda e me perdoe. Eu te amo. Se me for permitido entrar no paraíso, farei tudo para lhe garantir uma vida segura e repleta de paz, e esperarei por você lá. Se for para o inferno, darei tudo o que tenho para pagar as dívidas que ambos contraímos em vida, trabalhando para lhe dar o direito de entrar no céu quando sua hora chegar. Se me transformar num fantasma, zelarei por você à noite e afastarei todo espírito que venha perturbar seu descanso. Se não tiver para onde ir, eu me dissolverei no ar e estarei com você cada vez que você respirar. Obrigado, meu amor. Seu marido, que pensa em você dia e noite,
Kejun
Neste dia que nós dois não esqueceremos jamais.” p.136-137
“Quando a noite caiu e os lamas amarraram seus cavalos e guardaram seus trajes, os espectadores se reuniram em volta de fogueiras, e beberam vinho de cevada e chá de manteiga. Assaram carneiros inteiros, e o cheiro se espalhou pelo ar conforme a gordura respingava e chiava no fogo como fogos de artifício.
De repente, houve uma grande agitação, e todos correram para ver o que estava acontecendo. Alguém gritou por água quente e por um menba.
Zhuoma enfiou-se no meio da multidão para ouvir o que diziam. “Uma mulher entrou em
trabalho de parto”, disse ela a Wen. “Parece que está com problemas, e a família implora ajuda. Você pode fazer alguma coisa?”
Wen hesitou. Durante todos os anos que tinha passado no Tibet, mal usara seus conhecimentos médicos. A barreira da língua, a utilização de ervas diferentes, o fato de que em geral os tibetanos confiavam na oração quando alguém adoecia seriamente, haviam tornado inúteis os conhecimentos que adquirira com muito esforço. Seria uma atitude responsável da parte dela afirmar, naquele momento, que poderia ajudar num parto difícil?
Zhuoma percebeu sua indecisão.
“Venha”, disse. “Eles estão desesperados. Pelo menos vá ver o que está acontecendo.”p.122-123
Comentários de leitores do Clube de Leitura:
“Terezinha e colegas do clube de leitura agradeço novamente as partilhas que são sempre tão interessantes e enriquecedoras. Grande oportunidade de conhecer um pouco de uma cultura tão diferente da nossa. Excelente indicação.”
“Nosso encontro foi tão rico que não percebi que chegava ao final. Primeiro livro de autora chinesa que li. Agradeço a indicação, Terezinha, a vocês todos e a Solange pelo tanto que ampliaram e agregaram em conhecimento. Este momento do nosso encontro é sempre enriquecedor!”
“Gostei muito do livro. Fiquei encantada com a cultura tibetana e o estilo de vida dos nômades que lá vivem. Que linda ligação com a natureza! Obrigada por mais uma ótima escolha!
“Estou acabando de ler o livro. Triste e desafiador.”
“Adorei o livro. Maravilhosamente triste e desafiador. Um amor tão intenso e de tão pouca convivência. Obrigada por mais essa indicação belíssima.”
Para conhecer a autora:
https://www.youtube.com/watch?v=OzU986nNnxA
https://www.youtube.com/watch?v=03M3VTRQ9nE&t=1959s
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Próximo livro e data prevista para a discussão:
44º. – A FALÊNCIA, da autora brasileira, JÚLIA LOPES DE ALMEIDA
Data: 27 de março de 2025
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Os encontros são realizados nas últimas quintas-feiras de cada mês.
O tema do clube de leitura “LER PARA TECER AEA-MG” é a leitura de livros de romances escritos por autoras brasileiras e também estrangeiras.
“Um clube de leitura é um grupo de pessoas que leem o mesmo livro e se reúnem, de tempos em tempos, para conversar sobre cada uma das obras lidas.”
AEAMG