Há momentos em que a gente percebe com facilidade quando o corpo pede atenção. Uma dor que não passa, um exame que precisa ser feito, um cansaço diferente. Com a saúde mental, nem sempre é tão simples.
Às vezes, alguma coisa vai mudando aos poucos: perdemos o interesse por atividades de que gostávamos, nos afastamos um pouco das pessoas, temos dificuldade para lidar com determinadas mudanças ou simplesmente sentimos que os dias ficaram mais pesados.
Isso pode acontecer em qualquer fase da vida. E falar sobre o que estamos sentindo não deveria ser motivo de constrangimento.
E é exatamente essa conversa que o Setembro Amarelo, campanha mundial procura estimular. Esse ano, campanha reforça uma mensagem simples e importante: “Se precisar, peça ajuda!”
Esta campanha também pode nos ajudar a pensar no cuidado que acontece antes: perceber como estamos, preservar nossos vínculos, olhar com atenção para quem está próximo e procurar apoio quando sentimos que alguma coisa não vai bem.
Para quem já se aposentou, que é o caso de todos nós da AEAMG, essa conversa merece um olhar especial. A aposentadoria abre espaço para novas possibilidades, mas também modifica a rotina, os compromissos, as relações e, muitas vezes, a própria maneira como organizamos os nossos dias.
E cada pessoa atravessa essas mudanças de um jeito.
A saúde mental também muda ao longo da vida
A aposentadoria pode trazer liberdade para reorganizar o tempo, encontrar novos interesses, viajar, participar de atividades e estar mais perto da família e dos amigos. Ao mesmo tempo, é uma fase que pode envolver mudanças profundas na rotina e na forma como cada pessoa se percebe.
Há ainda situações que podem surgir com o passar dos anos: perda de pessoas próximas, mudanças na saúde, afastamento de amigos, preocupações familiares ou financeiras e períodos maiores dentro de casa.
Cada pessoa vive essas experiências de um jeito.
Sentir tristeza em determinado momento, ter dias de desânimo ou precisar de algum tempo para se adaptar a uma mudança faz parte da vida. Isso, por si só, não significa que exista uma doença.
O cuidado começa quando conseguimos perceber como estamos e quando uma mudança deixa de ser passageira e começa a interferir na rotina, nas relações ou no interesse pelas coisas que antes nos faziam bem.
O Ministério da Saúde chama a atenção para a saúde mental durante o envelhecimento e destaca que a solidão e o isolamento social podem afetar negativamente a saúde. Depressão e transtornos de ansiedade também podem ocorrer entre pessoas idosas e têm acompanhamento e tratamento.
O papel da AEAMG
Uma conversa, um encontro, uma atividade em grupo ou simplesmente ter um compromisso prazeroso para colocar na agenda podem fazer diferença na maneira como vivemos os nossos dias.
E esse é também um dos papéis da AEAMG: criar oportunidades para que os associados continuem ativos, próximos uns dos outros e participando da vida em comunidade.
Ao longo do ano, são muitas as possibilidades. Há oficinas e cursos, atividades culturais, coral, jogos de raciocínio, encontros, confraternizações, ações de voluntariado, passeios e iniciativas que aproximam os associados. Os Jogos FENACEF, por exemplo, vão muito além da competição: são também momentos de preparação, encontro, torcida, amizade e convivência com colegas de diferentes lugares.
Cada atividade tem sua proposta, mas existe algo em comum entre elas: elas colocam pessoas em contato com pessoas.
O Ministério da Saúde destaca a importância de manter vínculos, participar de atividades sociais, cultivar interesses e aprender coisas novas como parte dos cuidados com a saúde mental durante o envelhecimento.
Por isso, participar da AEAMG não precisa significar estar presente em tudo. Pode começar por aquilo que combina com você: uma oficina, uma aula, um encontro, uma apresentação, um jogo ou mesmo uma visita à Associação.
Às vezes, o primeiro passo é simplesmente sair de casa para encontrar gente conhecida — ou para conhecer gente nova.
É importante lembrar que atividades sociais e de convivência não substituem acompanhamento psicológico ou médico quando ele é necessário. Mas elas ajudam a construir algo muito importante em qualquer fase da vida: uma rotina com vínculos, interesses e espaços de pertencimento.
Se faz algum tempo que você não participa das atividades da AEAMG, fica o convite: dê uma olhada na programação. Talvez exista por lá alguma coisa esperando por você.
E quando alguma mudança chama a atenção?
Não existe uma lista capaz de determinar sozinha que uma pessoa esteja passando por uma crise. O próprio Ministério da Saúde orienta que sinais de alerta não sejam observados isoladamente. O contexto e a combinação de mudanças precisam ser considerados.
Vale se aproximar quando alguém começa, por exemplo, a se afastar das pessoas e das atividades de que gostava, demonstra desesperança com frequência, abandona cuidados pessoais ou passa a falar repetidamente sobre morte ou sobre não enxergar saída para seus problemas.
A reação mais útil não é julgar nem tentar resolver tudo imediatamente.
Comece pela conversa.
Pergunte como a pessoa está. Ouça com atenção. Dê espaço para ela falar sem comparar o problema com o de outras pessoas e sem diminuir aquilo que está sentindo.
Frases como “você precisa reagir”, “isso é coisa da sua cabeça” ou “você tem tudo, não tem motivo para ficar assim” podem afastar justamente quem precisa se sentir seguro para conversar.
Às vezes, uma pergunta simples funciona melhor:
“Percebi que você está diferente. Quer conversar?”
Um cuidado também para filhos, netos, companheiros e amigos
Quem convive com uma pessoa aposentada ou idosa pode ajudar observando mudanças na rotina sem transformar esse cuidado em vigilância.
Um telefonema que ficou raro, a ausência em encontros que antes davam prazer ou uma mudança forte e persistente de comportamento podem ser bons motivos para se aproximar.
O Ministério da Saúde recomenda que familiares e amigos ofereçam escuta, incentivem a procura por profissionais e, se possível, acompanhem a pessoa no atendimento. Quando houver risco imediato à segurança, a orientação é não deixar a pessoa sozinha e procurar um serviço de emergência.
Cuidar também é perguntar.
E, muitas vezes, perguntar de verdade significa estar disposto a ouvir a resposta.
Se precisar, peça ajuda
Pedir ajuda não significa perder autonomia ou ser incapaz de lidar com a própria vida.
Há momentos em que conversar com familiares e amigos ajuda. Em outros, é necessário procurar um psicólogo, psiquiatra ou outro profissional de saúde.
Pelo SUS, também é possível buscar orientação nas Unidades Básicas de Saúde e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia.
Em uma situação de emergência ou quando houver risco imediato à pessoa, procure um pronto atendimento ou acione o SAMU pelo telefone 192.
A conversa pode começar hoje
Talvez setembro sirva como um bom lembrete para uma pergunta que podemos fazer durante todo o ano:
Como você está, de verdade?
Podemos fazer essa pergunta a alguém de quem gostamos.
E podemos fazê-la a nós mesmos.
Se a resposta mostrar que as coisas estão difíceis, não é preciso enfrentar tudo sozinho.
Se precisar, peça ajuda.