Nesta memória, Terezinha Pereira compartilha suas recordações da Copa do Mundo de 1958, quando o Brasil conquistou seu primeiro título mundial. A partir de suas memórias de infância, a autora relembra a atmosfera, os hábitos e a emoção que envolveram aquele momento histórico.
Terezinha Pereira
Vejo jogos da Copa do Mundo pela TV, desde 1970, primeira vez em que foram transmitidos ao vivo, em preto-e-branco. Desde 1958, ouvia os jogos do Brasil, transmitidos em ondas curtas pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. E era bom.
Meus irmãos mais novos, Fernando de 6 e Wilson de 8 anos, iam com meu pai para a mercearia da esquina a fim de ouvir os jogos. Eles não suportavam a expectativa.
O radinho de casa em poucos minutos se esquentava. Tinha de ser desligado por uns minutos, para esfriar. Como esperá-lo voltar a funcionar? Razão que, a mercearia, que nem vendia bebidas, nos dias de jogos, enchia de homens e meninos da vizinhança.
Minha mãe, eu, 9 anos e Fátima, 4 anos, ficávamos em casa, morrendo de curiosidade. Mulher não podia nem pensar em frequentar local cheio de homens. Diziam muito palavrão, era a desculpa. (Menino homem, de 6 anos de idade, podia…)
Quem teria feito o gol? Deus, que agonia! O rádio ficava mudo. Restava-nos ficar à janela e, de longe, ver a correria dos homens e meninos com suas bandeirolas pelas ruas. Palavrões, gritados por diferentes tipos de voz, chegavam a nós nitidamente. Nem sabíamos seus significados. Perguntar à mãe… Nem pensar! Palavrões. Imoralidades. E pronto. E eram os palavrões que noticiavam que o adversário havia feito gol.
Wilson sabia de cor os nomes do escrete brasileiro. Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos, Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. E Feola, o técnico, que ele fazia questão de acrescentar. Cantava os nomes o dia inteiro, antes e depois de cada jogo. O primeiro, o Brasil ganhou da Áustria por 3X0. Quando jogadores eram substituídos, ele cantava o escrete com todos os novos.
No segundo jogo, Brasil X Inglaterra, deu empate de 0 x 0. Um susto. Para o terceiro jogo, teriam que retornar com os outros, era o que eu ouvia nos papos de Wilson com o pai.
No terceiro, com a União Soviética, o Brasil ganha de 2X0. Muita festa, muita correria pelas ruas, muitos fogos. Não me lembro de passeata de carros. Pudera! Na cidade, deveria haver apenas duas dúzias de automóveis e algumas motos.
Quarto jogo. O Brasil tinha 2 vitórias e um empate. Precisava ganhar. Saem Dino Sani, Mazzola. Entram Zito e Garrincha. Cumprem a obrigação: Brasil 1 , País de Gales 0. Faltavam 2 jogos. Era ganhar ou ganhar.
No quinto jogo, sai Vavá, entra Mazzola. O Brasil ganha da França: 5 X 2. Jogaria a final com a Suécia, dona da casa. Antes da partida, que seria no domingo, 29 de junho, cidade inteira só falava do malogro da Copa de 50. Meus pais contavam das expectativas, das tristezas, dos choros. No Maracanã, maior estádio coberto do mundo, que havia sido erguido para aquela copa, o Brasil perdeu a final por 2X1. O pai fala da crônica do Nelson Rodrigues, que saíra na véspera da abertura daquela Copa. Ele a lera numa revista, naquele sábado, véspera da final. Comentou que o Nelson dissera que brasileiros tinham “complexo de vira-latas”. Assim o escritor entendia o fato de o brasileiro se sentir inferior diante do resto do mundo. Ao ouvir isso, pensei que, às vésperas da final, o brasileiro estava se fantasiando de vira-latas. Naquele dia, andei pelas ruas para comprar tinta guache e não vi ninguém vestido de cachorro vira-latas. Acho que, só após muitos anos, compreendi a metáfora.
Passamos o sábado fazendo bandeirolas. O pai cortava e lixava com cuidado os palitos de bambu, para não ficarem com farpas. Wilson, Fernando, Fátima e eu espalhávamos guache verde, amarelo e azul no traçado da bandeira que havíamos traçado, lápis preto, em folhas de jornal. Na esfera azul, escrevíamos com tinta branca Ordem e Progresso e púnhamos um monte estrelas. Depois de secas, colávamos as bandeirolas nos palitos.
Naquele domingo, Wilson se levantou cantando o escrete do dia: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito e Didi; Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo. E Feola. Lembro-me que senti muita inquietação no ar. Não me lembro em que hora começaria o jogo. Pode ter sido à tarde.
Alguns, não sei se bordões ou jargões, e textos das propagandas, que ouvi na narração de Oswaldo Moreira e Jorge Cury – que me contaram ser irmão de Ivan Cury, cantor famoso na época – quase não são mais ditos nos dias de hoje. “A pelota viaja. Manda o couro para o arco. Manda a pelota a corner. Cancha, meia cancha. Respeitável público. Representação do Brasil. Quina da meia-lua. Arqueiro. Rede Esportiva Brahma Chopp, sob o comando da Rádio Nacional do Brasil, etc..”
Pouco após o início do jogo, ouvimos palavrões. Gol da Suécia. Minutos depois, um foguetório. Oba! Quase ao final do primeiro tempo, mais fogos. Com a parada do radinho, não soubemos quem havia feito o gol dos 2X1. Nem importávamos. O Brasil vencia. Pouco após o início do segundo tempo, ouvimos mais um gol do Brasil. Pelé. Disseram que Pelé havia feito o mais bonito gol da era do futebol. Gol bonito? Fui entender o que era, quando vi os gols da Copa 58 nos trailers que passavam nos cinemas antes do filme principal.
Corremos para a janela. Vimos as ruas Boa Vista e Direita lotadas. A partir de então, minha mãe não mais pôde conter suas meninas. Puxei a Fátima, chamei as primas Sônia e Ninha e corremos para a rua Direita, entupida de mulheres e crianças. Ouvimos os fogos após o gol de Zagallo. Naquele bololô, alguém comentou que o presidente Juscelino ouvia o jogo pela Rádio Nacional, em Brasília, cidade que estava sendo construída para ser a nova capital do país. Achei aquilo muito importante. Nem soubemos de segundo gol da Suécia.
Quando falaram que o segundo tempo chegava ao fim, ouvi uma foguetada. O jogo terminara em 4×1. Minutos depois, uma explosão de fogos por todo canto da cidade. Até de cima da Serra de Santa Cruz. 5X2 para o Brasil. Todo mundo corria prá lá e prá cá, com suas bandeirolas. E o foguetório varou a noite, adentrou madrugada. E a mãe nem nos repreendeu por havermos saído de casa sem permissão.
Na segunda, o Diário de Minas trazia em preto-e-branco as fotos da comemoração: a volta olímpica, o Rei Gustav V a entregar a taça ao Bellini, a torcida sueca cumprimentando a seleção brasileira. Fotos coloridas, só vi quando chegaram as revistas semanais. Os jogadores do Brasil cercados de louros muito brancos, alegria estampada nas faces. Os gols. A entrega da Taça Jules Rimet a Bellini. Que festa!




