Release referente ao 58º. Encontro
No dia 28 de maio de 2026, foi realizado, por videoconferência, o quinquagésimo-oitavo encontro do CLUBE DE LEITURA LER PARA TECER AEA-MG.
O livro discutido nesse encontro: UM RIO SEM FIM
Autora: Verenilde S.Pereira
Sobre: UM RIO SEM FIM
O livro Um Rio sem Fim vem questionar o estereótipo do índio preguiçoso, pouco inteligente, contrito em volta do missionário que, heroicamente, veio para tirá-lo da ignorância e da ignomínia, salvando-o pelo cristianismo e pela nomeada civilização.
Através de narrativa potente e sofisticada, de sensibilidade poética, a autora escancara o esvaziamento da identidade, do nome, infância, espaço, valores, toda uma cultura, levando essas pessoas à miséria humana, ao desespero e à loucura. De maneira extremamente dolorosa, um certo tom de mistério, acompanhamos a história de 4 meninas submetidas a todo tipo de domesticação e preconceito, religioso e social, a serviço de desmandos e crueldades da elite branca. Uma espiral de horrores, graduais, narrada em idas e vindas, dificuldades a demandar releituras, complexidades.
Quando o recurso da linguagem jornalística, da pesquisa acadêmica, do ativismo são insuficientes, a autora busca a literatura e, com a autoridade de sua origem e história pessoal, dá voz a esse povo de caminhos marcados pelo desrespeito, pela violência, pelo preconceito. Como último recurso, sabiamente, a autora transfere ao leitor a narrativa, sabendo que, tal como o rio, trata-se de um fluxo sem fim. ( Sebastião Aimone – Leitor do Clube de Leitura)
A autora: Verenilde S. Pereira
Verenilde S. Pereira nasceu em 1956, no Amazonas, filha de mãe negra e de pai indígena, da etnia Sateré Mawé. Formada em Jornalismo pela Universidade do Amazonas, atuou como repórter especializada em questões ligadas às lutas dos povos indígenas nos principais jornais de Manaus e Belém, realizando, dentre outras, a cobertura da entrada de garimpos na área Yanomami em Roraima e no Alto Rio Negro, no Amazonas. Como militante, atuou em diversos movimentos de resistência indígena e integrou o primeiro jornal especializado na questão, Porantim. Foi professora no Seringal Katipari, no rio Purus, no Amazonas, lecionando para ribeirinhos, indígenas, caboclos e seringueiros. Doutora em Comunicação, escreveu a tese “Violência e singularidade jornalística: ‘o massacre da Expedição Calleri’”, defendida em 2013 na Universidade de Brasília-UnB. Publicou ensaios, artigos e poesias, e é autora do livro de contos Não da maneira como aconteceu (Thesaurus, 2002). Seu romance Um rio sem fim, publicado em 1998, ganhou nova edição em 2025, pela Alfaguara- Companhia das Letras.
Trechos do livro:
“— Pois bem, em 1985 foram batizados setecentos e sessenta índios de um até seis anos e trezentos e setenta e dois após esta idade. Tivemos duzentos e oitenta casamentos, cento e duas mil e oitocentas comunhões, quatrocentas e vinte e duas eucaristias, cem emulsões dos enfermos e trezentas e uma crismas. Das crianças batizadas, trezentas e oito receberam o nome de Maria. Observe: Maria Etelvina, Maria Eugênia, Maria Bernadete, Maria da Esperança, Maria… “p.27-28
“Para quem sabe sonhar, os sonhos são mais perfeitos e perigosos do que a realidade.”p.35
“O moço olhou para o corpo de Laura Dimas buscando alguma fissura através da qual pudesse se aproximar, ultrapassando tempos, culturas, histórias. Vê aqueles nódulos de uma indianidade indelével espalhados nela e pensa se tais partículas estariam vivas ou quais teriam sido sepultadas para que ela ainda pudesse estar ali, com resíduos do passado interminável, com as catalogações perenes do presente, com o ar suspenso do que viria preenchê-la ou esgotá-la ainda mais; preencher seus sussurros estraçalhados para um mundo que pouco a escutava. Sussurros difíceis de discernir do barulho ensurdecedor das centenas de cachoeiras que circundavam todo o povoado, ao qual os missionários deram o nome de um santo: São Joaquim das Cachoeiras. […]Laura Dimas salpicada de séculos e misturando seus sussurros também ao ronco dos aviões, que agora pousavam mensalmente no povoado. Embora acompanhasse os seus, que saíam de madrugada e andavam horas para chegar à pista de pouso, ela nunca havia entrado em nenhum daqueles aparelhos, contentando-se em observar como os garotos e jovens saíam lá de dentro sorridentes e falantes.”p.15-16
Os trechos acima foram copiados do livro: Verenilde S.Pereira, UM RIO SEM FIM. 1ª. Ed. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2025.
Comentários de alguns leitores do Clube de Leitura:
“Faço coro à fala das colegas sobre o que continua acontecendo com os povos originários e o quanto ainda estamos distantes de uma convivência de respeito a sua cultura.” Luciane Madrid
“OBRA LITERARIA profunda e dolorida, retratando o TERROR da dizimação dos povos indígenas, num tempo nada distante. Remeteu-nos a diversas reflexões sobre a atualidade, um país que não valoriza (e reconhece ) os povos originários desse território Brasil, haja vista a necessidade de lutas sangrentas pela devolução de sua terra/morada. Marcante defesa da autora nos assusta e ainda assim nos dá esperança. “A Literatura suporta TUDO isso”, a literatura é política …” pois é lugar de denúncia, de protesto e de defesas. Sigamos, não como apenas expectadores. Obrigada a todos por tanta contribuição e luzes.” Maria do Carmo Nunes
“Acrescento ao brilhante resumo feito pelo Sebastião, minha reflexão sobre a obra. Para muito além dos estereótipos criados pelos ditos “civilizados”, a violência que os povos originários sofrem é realmente Um Rio Sem Fim. O massacre continua e esta população segue sendo “ignoradas nas salas”. O mais triste é que não está longe de nós na linha do tempo:
– índios incendiados em Brasília
– Yanomamis X garimpeiros
– demarcação de terras X Marco temporal
Há muito por fazer. Verenilde trouxe esse pequeno grupo à uma importante e necessária reflexão.” Janete Magalhães
“À Terezinha e ao grupo, meu agradecimento por mais essa leitura e comentários. Um livro de pungente e complexa travessia, oferecendo oportunidade de reflexão crítica sobre o silêncio e preconceito com que temos tratado as questões indígenas.” Sebastião Aimone
Para conhecer a autora:
Próximo livro e data prevista para a discussão:
59º. – UM AMOR INCÔMODO, da autora ITALIANA Elena Ferrante
Data prevista para o próximo encontro: 25 DE junho de 2026
Os encontros são realizados nas últimas quintas-feiras de cada mês, de 20h às 22h.
O tema do clube de leitura “LER PARA TECER AEA-MG” é a leitura de livros de romances escritos por autoras brasileiras e também estrangeiras.
“Um clube de leitura é um grupo de pessoas que leem o mesmo livro e se reúnem, de tempos em tempos, para conversar sobre cada uma das obras lidas.”

AEAMG