Clube de Leitura LER PARA TECER AEAMG 53º Encontro

No dia 18 de dezembro de 2025, foi realizado, por videoconferência, o quinquagésimo-terceiro encontro do CLUBE DE LEITURA LER PARA TECER AEA-MG. 

O livro discutido nesse encontro foi UMA MULHER, da autora francesa, Annie Ernaux.   

Sobre UMA MULHER 

  No livro Uma Mulher, Annie  Ernaux busca trazer a imagem da mãe,  que ela acaba de perder. Através da palavra, resgata a figura  de uma mulher forte, lutadora, que vê na filha a oportunidade de crescer socialmente e superar todo  o caminho traçado de antemão para aquele meio onde nasceu: pobreza, alcoolismo, cair na boca do povo, mesmice dos dias. A autora pretende fazer uma escrita de viés social, familiar, mítico, histórico,  de não-ficção. No entanto, surge na sua linguagem objetiva,  quase jornalística,  um novo estilo em que brilham humanidades e contradições.  Um livro que se propõe simples, curto, mas que se abre em ressonâncias, dores e ricas possibilidades de leitura! (Sebastião Aimone – leitor do Clube de Leitura)

*****

A autora: Annie Ernaux 

Annie Thérèse Blanche Ernaux nasceu em 1º de setembro de 1940, em Lillebonne, Normandia, França. Cresceu em Yvetot em uma família de classe trabalhadora que geria um pequeno café-mercearia. Formou-se em Letras Modernas pelas universidades de Rouen e Bordéus. Trabalhou como professora de literatura por mais de 30 anos, incluindo o Centre National d’Enseignement par Correspondance (CNED), aposentando-se no ano de 2.000 para se dedicar integralmente à escrita. É considerada uma das vozes mais importantes da literatura francesa contemporânea, misturando autobiografia, sociologia e história. Ela prefere descrever sua escrita como “fatos biográficos” em vez de autoficção, usando uma linguagem direta e sem floreios. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 2022 pela “coragem e acuidade clínica com que descobre as raízes, os afastamentos e as restrições coletivas da memória pessoal”. Foi a primeira mulher francesa a receber essa honra. Foi casada com Philippe Ernaux, com quem teve dois filhos, antes de se divorciar no início dos anos 1980. Atualmente, seus livros são publicados no Brasil pela editora Fósforo.

*****

Trechos do livro 

“Uma vez, desci ao porão e a mala da minha mãe estava lá, com a carteira dela, uma bolsa colorida e lenços dentro. Fiquei prostrada diante da mala aberta. Quando me encontrava fora de casa, na cidade, era pior. Estava dirigindo e, de repente: “ela nunca mais estará em lugar nenhum do mundo”. Não conseguia mais entender o modo como as pessoas se comportavam, a atenção minuciosa no açougue, quando escolhiam determinado corte de carne, era para mim um horror.” Annie Ernaux. Uma mulher. Trad. Marília Garcia. São Paulo: Fósforo, 2024.p.12

“O que eu espero escrever de mais exato se situa, sem dúvida, na articulação entre o familiar e o social, o mito e a história. Meu projeto é de natureza literária, pois trata de buscar uma verdade sobre a minha mãe que só pode ser alcançada por meio das palavras. (Ou seja, nem as fotos, nem minhas lembranças, nem os testemunhos da família podem me dar esta verdade.) Mas quero permanecer, de certa forma, abaixo da literatura.”p.14

“Agora tenho a sensação de que escrevo sobre a minha mãe para poder eu mesma trazê-la ao mundo.”p.25

“Tento não considerar a violência, os transbordamentos afetivos, as censuras de minha mãe apenas como traços pessoais de caráter, mas situá-los também em sua história e sua condição social. Essa forma de escrever que me parece ir na direção da verdade me ajuda a sair da solidão e da confusão produzidas pela lembrança individual, pois descubro um significado mais amplo. Mesmo assim sinto que alguma coisa em mim resiste e gostaria de conservar, de minha mãe, imagens puramente afetivas, calor ou lágrimas, sem lhes dar um sentido.”p.30

“Diante desse mundo, minha mãe ficou dividida entre a admiração que sentia pela boa educação, elegância, cultura e o orgulho em ver a filha pertencer a ele, e por outro lado o medo de que, sob uma capa de requintada civilidade, ela pudesse ser desprezada. Toda a dimensão de seu sentimento de não ser digna, sentimento do qual ela não me separava (talvez fosse preciso mais uma geração para apagá-lo), estava na frase que ela me disse na véspera do meu casamento: “trate de cuidar bem da sua casa, para ele não te devolver”. E, a respeito da minha sogra, há alguns anos: “dá para ver que ela não foi criada como nós”.”p.41

Sentia necessidade de lhe dar comida, de tocar nela, entendê-la.Várias vezes, o desejo brutal de levá-la dali, de não fazer nada além de cuidar dela, e logo a consciência de que não conseguiria. (Culpa por a ter levado para lá, mesmo que, como diziam as pessoas, eu não pudesse ter feito diferente.)”p.58

OBS: os trechos acima foram copiados da edição: “Annie Ernaux (1940). Uma mulher. trad. Do francês por Marília Garcia. São Paulo: Fósforo, 2024. 

*****

Comentários de alguns leitores do Clube de Leitura:

“Boa noite grupo querido: nossa partilha foi profundamente gostosa e alegre. Tanta riqueza e uma diversidade de conexões – da vida real e da vida literária. Muito feliz por fazer parte desse clube literário e aprender demais em cada encontro. Obrigada a todos e em especial a Terezinha pela indicação da obra.” (Maria do Carmo)

“Sobre o livro: há tempos queria ler Annie Ernaux, motivada por comentários sobre sua obra, mas ainda não tinha tido oportunidade. No início do livro, pensei em desistir da leitura, porque algumas passagens acionaram gatilhos de lembranças pesarosas.  Mas, continuei a leitura. A autora tem uma escrita crua, do tipo “direto ao ponto”. Sem rodeios. Gostei do livro; a partir de um determinado ponto, faz com que o leitor não queira largá-lo.  Quero procurar outros títulos da autora. O encontro: nosso encontro acrescentou nuances à compreensão do texto. Sempre muito rico e proveitoso. Agradeço à Terezinha pela indicação da autora e condução do encontro, aos colegas que participaram, sempre com impressões e opiniões relevantes, e à AEA que patrocinou o encontro. ( Rita de Cássia Ponciano)

“O livro Uma Mulher narra de uma forma simples a complexidade da vida e de histórias entrelaçadas, especialmente entre mãe e filha. Traz para o leitor reflexões como os costumes e seus preconceitos; a infância e a velhice; a nossa vulnerabilidade como ser humano e finitude, entre outras. É envolvente, especialmente para quem gosta de se revestir de frases que costumam ser incômodas. Mais uma joia compartilhada pelo Clube de Leitura da AEA/MG que tenho o privilégio de fazer parte!” (Marcos Eduardo)

*****

Para conhecer a autora:

*****

Próximo livro e data prevista para a discussão:

 54º. –  ESBOÇO EM PEDRA E SONHO, da autora brasileira, Marília Arnaud

Data prevista para o próximo encontro:  29 de janeiro de 2026

OBS: Devido a última quinta-feira do mês cair em 24/12, véspera de Natal, excepcionalmente, o encontro de dezembro foi realizado na terceira quinta-feira do mês.

*****

Os encontros são realizados nas últimas quintas-feiras de cada mês, de 20h às 22h. 

O tema do  clube de leitura “LER PARA TECER AEA-MG” é a leitura de livros de romances  escritos por autoras brasileiras e também estrangeiras.

“Um clube de leitura é um grupo de pessoas que leem o mesmo livro e se reúnem, de tempos em tempos, para conversar sobre cada uma das obras lidas.”