50º encontro de Ler para Tecer

No dia 25 de setembro de 2025, foi realizado, por videoconferência, o quinquagésimo encontro do CLUBE DE LEITURA LER PARA TECER AEA-MG. 

O livro discutido nesse encontro foi O DIA DA TEMPESTADE, da escritora britânica, Rosamunde Pilcher. 

Sobre HOSPÍCIO É DEUS

Em Hospício é Deus, de Maura Lopes Cançado: “O tema da loucura nos toca a todos, com seus estigmas, preconceitos e tratamentos diversos com histórico de desumanidades.  “Falar é uma bela loucura”. Da frase de Nietzsche, Maura Lopes Cançado faz sua tentativa de significação.

Escrevendo Hospício é Deus, questiona a relatividade da loucura, põe-nos a par das mazelas e violências das internações manicomiais, tenta junto a médicos e leituras um diagnóstico possível para seu comportamento. Ecos da infância? Do relacionamento com o pai? Da extrema inteligência e sensibilidade? Dos tratamentos a que se submeteu? Da rejeição preconceituosa da sociedade?

Acompanhamos nas páginas desse diário o dia a dia da sua internação entre 1959 e 1960, suas obsessões, eventos, violências, reflexões, observações, tentativa com a psicanálise, tudo numa linguagem carregada de lucidez e angústias, de situações paradoxais o tempo todo.

Nesse círculo de horrores, vê-se perdida em pensar, pensar, na busca de se encontrar, de suicídio, de autodestruição, acreditando que o mal é uma dimensão da sua natureza.

Obra densa, de fôlego, sofrida e necessária. (Sebastião Aimone Braga- Leitor de Ler para Tecer AEAMG)

A autora: Maura Lopes Cançado

Maura Lopes Cançado nasceu em São Gonçalo do Abaeté/MG em 27 de janeiro de 1929 e morreu no Rio de Janeiro em 19 de dezembro de 1993. Foi uma escritora brasileira  que esteve internada diversas vezes para tratar problemas psiquiátricos e ficou praticamente esquecida depois de sua morte em 1993.

Epilética desde a infância, casou-se aos 14 anos, teve seu único filho aos 15 e logo depois separou-se. Aos 18 anos, internou-se pela primeira vez, voluntariamente, em um sanatório para doentes mentais. Quis ser escritora: mudou-se para o Rio de Janeiro aos 22 anos, tendo publicado alguns de seus contos no Jornal do Brasil – JB e no Correio da Manhã, além de conviver, no JB, com figuras de reconhecido peso na literatura brasileira: Reynaldo Jardim, Ferreira Gullar, Assis Brasil e Carlos Heitor Cony. Maura Lopes Cançado é, desafortunadamente, um nome não muito comum no cânone literário nacional; suas únicas duas obras foram publicadas em 1965 (Hospício é deus: diário I) e 1968 (O sofredor do ver). Começou a relembrada a partir do meio acadêmico e em 2015, teve seus livros republicados pela Autêntica Editora. Em 2024, Hospício é Deus foi publicado pela Cia. aas Letras,  

Trechos do livro 

“O que me assombra na loucura é a distância — os loucos parecem eternos. Nem as pirâmides do Egito, as múmias milenares, o mausoléu mais gigantesco e antigo possuem a marca de eternidade que ostenta a loucura. Diante da morte não sabia para onde voltar-me: inelutável, decisiva. Hoje, junto dos loucos, sinto certo descaso pela morte: cava, subterrânea, desintegração, m. Que mais? Morrer é imundo e humilhante. O morto é náuseo, e se observado, acusa alto a falta do que o distinguia. A morte anarquiza com toda dignidade do homem. Morrer é ser exposto aos cães covardemente. Conquanto nos dois estados encontro ponto de contato — o principal é a distância. Ainda que só diante do louco tenha experimentado a sensação de eternidade. Nele não encontramos a falta. Nos parece excessivo, movendo-se noutra espécie de vibração. Junto dele estamos sós. Não sabendo situá-lo fica-se em dúvida: onde se acha a solidão? O louco é divino, na minha tentativa fraca e angustiante de compreensão. É eterno.” p.25

“Estou de novo aqui, e isto é _________. Por que não dizer? Dói. Será por isto que venho? — Estou no Hospício, deus. E hospício é este branco sem fim, onde nos arrancam o coração a cada instante, trazem-no de volta, e o recebemos: trêmulo, exangue — e sempre outro. Hospício são as ores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro — como o que não se pode ainda compreender. São mãos longas levando-nos para não sei onde — paradas bruscas, corpos sacudidos se elevando incomensuráveis: Hospício é não se sabe o quê, porque Hospício é deus.”p.26

“Nair, surda-muda, é inteligentíssima. Não a creio psicopata. Sua família a mantém aqui por um desses casos inexplicáveis de incompreensão humana. Então contaram um drama ao médico, arranjaram amigos influentes — prenderam-na como doida. (Não é o único caso aqui dentro.) Quando cheguei ao IP  ela estava lá há um ano, era bem-comportada, costurava, mesmo para médicos.”p.78

— Não dão ao louco nem o direito de ser louco. Por que ninguém castiga o tuberculoso, quando é vítima de uma hemoptise e vomita sangue? Por que os “castigos” aplicados ao doente mental quando ele se mostra sem razão?”p.83

(copiados da edição: Maura Lopes Cançado. Hospício é Deus-Diário I. Belo Horizonte: Autêntica, 2016)

Comentários de leitores do Clube de Leitura:

“Quanto à reunião de hoje, o tempo foi pouco para tantas considerações. A obra despertou reflexão e vivências,  narrativas e identificações. Trouxe como personagens autores conhecidos e a figura inovadora de Nise da Silveira, que trouxe humanidade para o tratamento psiquiátrico. Muitas contribuições levantadas pelo grupo após leitura tão impactante.”

Hospicio é Deus: “Houve um tempo que a religião usava Deus para castigar, subjugar,  exigir obediência e não respeito e amor.

‘Devemos amar a Deus sobre todas as coisas’. Sim, concordava com veemência e mentira. Amá-lo como, impiedoso e desconhecido, me espionando o dia todo? Ia matar-me quando quisesse, mandar-me para o inferno. Amar a Deus? Deus, meu pai? Ora, a meu pai eu abraçava, pedia coisas, tocava. Como podia ser meu pai um ser de quem só tinha notícias — além de tudo terríveis?’ p.18

‘Deus foi o demônio da minha infância.’ p.18

É triste falar da loucura e a Maura descreveu de uma maneira filosófica, quase poética, mas mesmo assim tinha somente as dores dos uniformes cinzas e os pés descalços no chão frio.

No caso da Maura, acho que sua maior loucura (não no sentido da palavra) foi se internar a primeira vez aos 18 anos.

‘Em Belo Horizonte, cercados por montanhas, somos ‘fundidos a ferro e fogo. Montanha, ferro, pedras, minério — transforma-nos em seres rijos, pensantes e mais cruéis.’ P. 82

‘Nesta época internei-me pela primeira vez em sanatório para doentes mentais. (Já eu tinha dezoito anos.) Ninguém entendeu o motivo desta internação, a não ser eu mesma: necessitava desesperadamente de amor e proteção.’ p.82

De resto, o que veio foram consequências, talvez de tratamentos experimentais, solidão ou incompreensão.

Ela que cresceu debilitada e sendo mimada, não suportou o que estava nos seus ombros numa idade que hoje a gente fala:  mas é uma menina! (mesmo sendo uma menina mimada)”

“Obrigada a todos, pela riqueza das partilhas faladas e escritas. Excelente obra, a seleção foi certeira.”

“Mais uma temática rica em nuances foi discutida ontem. A saúde mental. Diário 1 de Maura Lopes Cançado, “Hospício é Deus”. Como foi rico em trocas o nosso encontro!! Agradeço à Terezinha pela indicação do livro, aos colegas pela partilha e à AEA pelo patrocínio.  Sempre saio ganhando dos nossos encontros./ Apenas uma curiosidade: num dos podcasts sugeridos sobre o livro, foi dito que havia um Diário 2, ainda em manuscrito, mas foi perdido, esquecido em um táxi.  Só que, nesse manuscrito, a autora dava “nome aos bois”, o que poderia comprometer muita gente. Então……..”

“Obrigada por nos trazer escritoras e temas tão diversificados que nos fazem refletir, avançar, ampliar nosso panorama de visão do mundo, do outro, e aprofundarmos em nós mesmos! Os nossos encontros não acabam quando terminam…rsrs…eles continuam em mim, nos meus pensamentos, nos sentimentos e nos meus passos!! Isso é muito valioso!! Obrigada pelas indicações de leitura e obrigada a cada um pela partilha das impressões enriquecedor!!”

Para conhecer a autora:

https://www.youtube.com/watch?v=6TzIAuFF21I

Próximo livro e data prevista para a discussão:

50º. – O invencível verão de Liliane, da autora mexicana, Cristina Rivera Garza

Data prevista para o próximo encontro: 30 de outubro de 2025

Os encontros são realizados nas últimas quintas-feiras de cada mês, de 20h às 22h. 

O tema do  clube de leitura “LER PARA TECER AEA-MG” é a leitura de livros de romances  escritos por autoras brasileiras e também estrangeiras.

“Um clube de leitura é um grupo de pessoas que leem o mesmo livro e se reúnem, de tempos em tempos, para conversar sobre cada uma das obras lidas.”

AEAMG