48º encontro do Clube de Leitura Ler para Tecer AEAMG

No dia 31 de julho de 2025, foi realizado, por videoconferência, o quadragésimo-oitavo encontro do CLUBE DE LEITURA LER PARA TECER AEA-MG. 

O livro discutido nesse encontro foi QUARTO DE DESPEJO- diário de uma favelada, da escritora brasileira, Carolina Maria de Jesus.

 

Sobre QUARTO DE DESPEJO – diário de uma favelada

“O livro Quarto de Despejo traz-nos uma narrativa pungente, através de um diário que vai de julho de 1955 a 01 de janeiro de 1960, tendo como tema a sobrevivência nua e crua da narradora. A pior coisa do mundo é a fome, diz ela, e todos os dias se depara com a luta para conseguir alimento para si e os 3 filhos através do lixo, com seus papéis, metais, possibilidades de comida, sapato e roupas.

Acompanhamos atônitos, aflitos e surpresos essa condição precária de uma negra, pobre, solteira e seu dia a dia na antiga favela do Canindé, às margens do Rio Tietê, SP. E, igualmente, seu sonho de ser escritora e ter uma casa de alvenaria.”

Sebastião Aimone Braga – Leitor do Clube de Leitura Ler para Tecer 

 

A autora: Carolina Maria de Jesus 

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento/MG em 14 de março de 1914. Em 1947 mudou-se para São Paulo, onde viveu até sua morte, em 13 de fevereiro de 1977. Foi escritora, cantora e poeta, mais conhecida por seu livro Quarto de Despejo – diário de uma favelada, que relata sua vida na favela do Canindé, em São Paulo. Sua obra, de grande impacto literário e social, consagrou-a como uma das mais importantes escritoras negras do Brasil. 

Viveu grande parte de sua vida como catadora de papel e outros objetos retirados do lixo na favela Canindé, num barraco de papelão, sem água encanada, sem luz.  Porém, em seu tempo vago, lia e escrevia seu diário e suas histórias, apesar de ter cursado, em Sacramente, somente até o segundo ano do curso primário. Uma vez, quando conversava com pessoas de sua favela e falava de seus escritos, foi ouvida por um jornalista, Audálio Dantas, que se interessou por conhecer seus escritos e por eles, teria se encantado. 

Em 1960, Audálio Dantas promoveu a publicação do livro Quarto de Despejo- diário de uma favelada.  Audálio escolhera trechos de seu diário, cujo cenário retratava a violência, as desigualdades sociais mas, principalmente, a FOME na vida da favela. O livro foi um sucesso de vendas, foi reconhecido internacionalmente tendo sido traduzido e publicado em treze idiomas. 

Em vida, além de Quarto de Despejo-Diário de uma favelada (1960), Carolina lançou Quarto de Despejo: Carolina Maria de Jesus cantando suas composições (1961) – RCA Victor, álbum musical; Casa de Alvenaria-diário de uma ex-favelada (1961); Pedaços de Fome (1963); Provérbios (1965). Após sua morte, várias obras foram publicadas: Diário de Bitita, que resgata suas memórias de infância e juventude. O Diário de Bitita foi publicado primeiramente em francês, em 1982, e depois em português, mostrando a força literária da autora. E mais: Um Brasil para Brasileiros, Meu Estranho Diário e Antologia Pessoal. Essas obras foram compiladas a partir de seus materiais escritos. 

 

Trechos do livro (copiados da edição: Carolina Maria de Jesus. Quarto de Despejo – diário de uma favelada.  São Paulo: Ática, 1993.):

19 DE MAIO Deixei o leito as 5 horas. Os pardais já estão iniciando a sua sinfonia matinal. As aves deve ser mais feliz que nós.Talvez entre elas reina amizade e igualdade. (…) O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dormem porque deitam-se sem comer.” p.30

“…Para mim o mundo em vez de evoluir está retornando a primitividade. Quem não conhece a fome há de dizer: “Quem escreve isto é louco’’. Mas quem passa fome há de dizer:

—Muito bem, Carolina. Os generos alimentícios deve ser ao alcance de todos. Como é horrivel ver um filho comer e perguntar: “Tem mais? Esta palavra “tem mais’’ fica oscilando dentro do cerebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais.” p.34

 

“…Quem deve dirigir é quem tem capacidade. Quem tem dó e amisade ao povo. Quem governa o nosso país é quem tem dinheiro, quem não sabe o que é fome, a dor, e a aflição do pobre. Se a maioria revoltar-se, o que pode fazer a minoria? Eu estou ao lado do pobre, que é o braço. Braço desnutrido. Precisamos livrar o paiz dos políticos açambarcadores.”  p.35

28 DE MAIO …A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.”p.147

Comentários de leitores do Clube de Leitura:

“Carolina muito me encantou. Veio sem pedir licença, mostrou ao mundo a realidade ainda hoje vivenciada por muitos.”

 

“Acho que, para a maioria dos governantes, a questão da fome é uma questão de poder.

Em 1994, estava fazendo uma caminhada na Chapada Diamantina e tive que voltar sem meu grupo para a comunidade mais próxima, pois um carro estaria me esperando para ir embora. Para não voltar sozinha na trilha, voltei com um casal do Sul com quem tinha feito amizade no dia. O rapaz era novo, recém formado, idealista e estava trabalhando na Bahia em sua área de atuação. Hoje em dia, as formações em engenharia mudaram muito, ele era especialista em recursos hídricos.

Durante as quase 2h de caminhada, ele expôs a vontade de voltar para o sul, pois na época, o pessoal passava muita sede na Bahia (isso a partir daqui do norte de Minas), faltava uma boa distribuição dos recursos hídricos e faltava saneamento, situação possível resolver em muitos casos. Porém, o governo da Bahia (acho que ACM, que era a favor da modernização da Bahia), não aceitava alguns projetos, pois ‘o povo pobre é mais submisso’. A Água representava poder. A água era objeto de barganha nas eleições.”

A partir da distribuição da água, a engrenagem gira… Então isso tem muita ligação ( com o que Carolina disse no seu diário).” 

 

“Relembrando a rotina de Carolina Maria de Jesus:  ̶ Levantei as 5h e fui carregar agua”. Era sempre assim: levantar e carregar água antes de começar seu dia.

 

“Em 10 de Maio de 1958, Carolina escreve:

‘… O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças.’ Carolina de Jesus, no dia 10/05/1958, em seu diário. Página 29 da 10.ª edição, Ed Ática.”

 

“Li a Edição comemorativa dos 60 Anos. Nela tem o Prefácio de Alberto Moravia do livro publicado em italiano em 1962, que achei muito interessante, seguido do Artigo de Otto Lara Rezende de 1977, além de vários outros artigos.Também adquiri para ler “Carta Para Uma Negra” de Françoise Ega. Ao se identificar com a escrita de Quarto de Despejo,  Françoise Ega passa a escrever cartas para Carolina. Jamais foram entregues e elas não se conheceram. Obrigada a todos por mais um encontro enriquecedor.”

“Esqueci-me de dizer que gostei muito do prefácio do Audálio Dantas.”

 

Para conhecer a autora:

https://youtu.be/eHd5998K3H8?si=eJUF_AmteaPIvm4h

 

Sugestão: ouvir 10 podcasts sobre vida e obra de Carolina Maria de Jesus:

https://www.youtube.com/watch?v=G5QU_yWNaMk&list=PLaxkwHCZnqueBloQ2KCV3lobBWqgSCa30&index=1

 

Próximo livro e data prevista para a discussão:

 

 49º. – O DIA DA TEMPESTADE, da autora britânica, Rosamunde Pilcher 

 Data Prevista para o encontro: 28/08/25 

 

Os encontros são realizados nas últimas quintas-feiras de cada mês, de 20h às 22h. 

O tema do  clube de leitura “LER PARA TECER AEA-MG” é a leitura de livros de romances  escritos por autoras brasileiras e também estrangeiras.

“Um clube de leitura é um grupo de pessoas que leem o mesmo livro e se reúnem, de tempos em tempos, para conversar sobre cada uma das obras lidas.”

AEAMG