Muito mais que futebol – a copa e seus encontros 

Luciane Madrid Cesar

Copa do Mundo chegando… Em outros tempos, minha casa já estaria enfeitada, a roupa temática separada, os churrascos, aqui em casa ou na casa de alguém, programados. Mas, nos últimos anos, sinto que o clima já não é mais o mesmo.

Eu me lembro do tempo em que comprávamos o álbum de figurinhas da copa e, junto, um tubo de cola – ainda não existiam as autocolantes – e andávamos com os cromos repetidos na mochila, para trocar na sala de aula. Nos dias de jogo, eu e meus primos íamos para a casa de nossos avós e, a cada gol, esticávamos serpentina de um lado ao outro na rua, esperando os carros passarem buzinando e arrebentarem a longa tira de papel (Isso ainda era possível em São Paulo). Eu nem entendia muito bem de futebol nessa época, mas era apaixonada pelo Marinho Chagas, com seus cabelos louros e esvoaçantes. Era 1974, ditadura militar, e a bandeira do Brasil só podia ser usada inteira, sem estilizações ou outros usos que não fossem o de flâmula nacional. Nada de roupas ou bolsas estampadas com seu desenho, inteiro ou em partes. Nessa época, usar looks com a combinação das cores verde e amarelo era uma breguice só aceitável em dias de Copa do Mundo. A camisa canarinho era idolatrada, e foi por muito tempo, antes que virasse acessório político nos últimos anos.

Na copa seguinte, 1978, eu assisti em casa com meu pai. Lembro-me bem do último jogo do Brasil, a disputa pelo terceiro lugar com a Itália. Ganhamos, mas foi uma vitória amarga, já que a seleção, única invicta em toda a copa, foi vítima do regulamento e, dizem os teóricos da conspiração (ou não), de compra de resultado no jogo Argentina e Peru. Meu pai, competitivo ao extremo, fanático esportista de poltrona, ao ouvir o comentarista dizer que o Brasil era o “campeão moral” dessa copa, levantou-se irritado, pegou os bastões verde e amarelo que eu usava para comemorar gols (acessórios remanescentes de uma apresentação escolar do Dia da Pátria) e os atirou pela janela, com um palavrão. O resultado foi uma visita imediata do zelador e uma advertência formal a minha mãe, proprietária de contato da administradora do apartamento.

Outras lembranças 

Na copa de 1982, aquela que revelou nosso “futebol arte, mas não rendeu taça, eu levava um minúsculo radinho de pilha para a escola e nos intervalos de aula juntava os amigos – e até alguns professores – para saber os resultados. Era época do primor pela qualidade de som, dos hi-fi e equalizadores. Meu radinho com minúsculos alto-falantes era chamado de “caixinha de abelhas” – não muito diferente dos celulares de hoje.

Na copa de 1982, aquela que revelou nosso “futebol arte, mas não rendeu taça, eu levava um minúsculo radinho de pilha para a escola e nos intervalos de aula juntava os amigos – e até alguns professores – para saber os resultados. Era época do primor pela qualidade de som, dos hi-fi e equalizadores. Meu radinho com minúsculos alto-falantes era chamado de “caixinha de abelhas” – não muito diferente dos celulares de hoje.

Outra copa marcante para mim foi 1994, o Tetra. Grávida de seis meses, reunimos os (muitos)amigos em casa para a final, que foi emocionante, com direito a prorrogação e pênaltis. Morávamos numa casa antiga, com piso de madeira e porão, típica casa mineira de outros tempos. A turma era animada, a ansiedade corria solta. Ao final, campeões, achei que o chão ía ceder e acabaríamos todos presos entre as tábuas e o subsolo.

Em 2010, a Skol lançou uma lata que emitia um som de torcida ao ser aberta (lembram?) e vinha aleatoriamente incluída em alguns fardos da bebida. Nós achamos uma. Ela era ativada por uma célula fotossensível ao se abrir o lacre (ou deixar entrar a luz, se já estivesse aberto). O Brasil durou pouco no torneio, mas a lata ficou aqui em casa por vários anos, assustando (ou irritando) quem a tirasse da posição de escuridão.

O vexame 

E como não lembrar da mancha mais cruel dos últimos tempos em nosso currículo: o 7×1. Tínhamos ido fazer nossa primeira viagem à Europa para levar nossa caçula para o intercâmbio na Irlanda (em todo lugar nos perguntavam o porquê de sairmos do Brasil justamente quando a copa era no país…). Eu e minha mais velha voltávamos para casa exatamente no dia 08 de julho de 2014. O vôo Madrid-São Paulo teria sua decolagem bem no meio do jogo. No aeroporto – Barajas – assistimos ao primeiro tempo, engasgadas. Fomos ao banheiro com 1 x 0 e voltamos, conco minutos depois, já com 4×0. Não podíamos acreditar. A espanhola a minha frente comemorava: “Bien hecho. Estos brasileños son muy arrogantes”. Com os procedimentos de embarque, não vimos os três últimos gols mas, logo depois da decolagem, o comandante, brasileiro, com voz entristecida, nos informou o resultado.

Este ano, para mim, o clima de copa está bem frio. Talvez pelos inúmeros escândalos envolvendo times e jogadores em assuntos muito diferentes das habilidades futebolísticas. Talvez porque outros esportes cresceram e tomaram o lugar do futebol na preferência nacional. Ou, simplesmente, porque tudo muda mesmo, é um fato, e já não convivo mais com as mesmas pessoas de antes. Sinto falta da animação, dessa coisa de todos torcendo por um objetivo comum, comemorando ou sofrendo juntos. Era um momento de juntar a família, o que hoje não é mais possível.

De qualquer forma, no sábado (13) vou estender minha bandeira na janela e, talvez, deixá-la lá até o final, relembrando velhos tempos. Vou pôr no sol minha camisa de torcedora – a azul (ainda não me sinto à vontade para usar a amarela). Quem sabe, convidar alguém para assistirmos juntas ou juntos, talvez num bar – qual dos meus amigos e amigas atuais ainda gosta de futebol? Vamos ver que histórias terei a contar no futuro sobre a Copa de 2026.